DOR ABDOMINAL – Sintomas, Causas ,Tratamentos

dor-abdominal tratamento, causas, sintomas medicina.blog.brDOR ABDOMINAL

Introdução
A dor abdominal é uma das queixas mais comuns na Atenção Primária. Neste contexto, o capítulo
tem como objetivo auxiliar as equipes de saúde no primeiro atendimento à pessoa com dor abdominal
aguda, tendo como principal enfoque a suspeição de causas agudas graves (que necessitam de
encaminhamento rápido para outros níveis de atenção) e determinar quais pacientes podem ser
observados ou tratados sintomaticamente.
Dada a diversidade de possíveis etiologias e a necessidade, em muitos casos, de exames mais
sofisticados, não pretendemos esgotar a investigação, nem tratar aqui do atendimento às pessoas
com dor abdominal crônica, certos de que estas estarão sendo acompanhadas longitudinalmente.
Conceitos
A definição de dor abdominal aguda é bastante arbitrária, já que não está estabelecida uma
duração específica para ela. Quadros que duram poucos dias, com piora recente, configuram
claramente uma dor abdominal aguda; quadros com instalação por meses ou anos configuram dor
abdominal crônica. O grande desafio é classificar as dores que não pertencem a essas categorias.
Assim, entendemos como dor abdominal aguda aquela onde há a combinação de lesão tecidual,
dor e ansiedade. O que define a crônica é a persistência e refratariedade ao tratamento.
Já as dores recorrentes evoluem em surtos, com duração, intensidade e frequência bastante
diversificados, separados por períodos assintomáticos.
Pacientes com dor abdominal crônica podem apresentar exarcebações agudas de uma doença
desconhecida ou mesmo de uma doença crônica de base.

Diagnóstico
Causas de dor abdominal
Os primeiros diagnósticos que devem ser aventados são aqueles que podem requerer intervenção
breve. Define-se como abdome agudo cirúrgico a condição que apresenta piora rápida no prognóstico,
caso não haja intervenção cirúrgica.
As síndromes inflamatórias e obstrutivas constituem as mais importantes causas de dor abdominal
aguda cirúrgica. Os abdômens agudos hemorrágicos e isquêmicos possuem algumas características
clínicas semelhantes às peritonites.
O quadro obstrutivo normalmente tem evolução rápida, exceto os pacientes que apresentam
obstrução parcial das alças intestinais e evoluem para obstrução total. Nesses casos, os sintomas
podem ser prolongados e vagos e, com a obstrução total, evoluem com piora súbita.
A história de dor abdominal, nas causas obstrutivas, pode vir associada à anorexia, náuseas,
vômitos (alimentares, biliares ou fecaloides), e parada de eliminação de gases e fezes. É normalmente
descrita como uma dor tipo cólica, seguida por períodos de remissão espontânea.
O exame físico pode revelar distensão abdominal, aumento ou ausência dos ruídos hidroaéreos e
timpanismo à percussão. A presença de massa palpável pode sugerir a etiologia da obstrução.
As causas mais comuns (até 96% dos casos de obstrução) são: aderência (50% a 70%), hérnia
encarcerada (15%), neoplasia (15%), intussuscepção e volvo. Pacientes com cirurgia abdominal prévia e doença de Crohn têm maior risco de obstrução. A inflamação do peritônio pode ser
difusa ou localizada, no entanto, mesmo no acometimento difuso, a dor é mais acentuada no local
correspondente ao foco inicial da infecção.
Os sinais gerais que compõem o quadro clínico variam com a gravidade da infecção, sendo desde
toxemia, rigidez da parede abdominal, defesa e distensão abdominal por inibição do peristaltismo,
podendo chegar ao íleo paralítico, até com menor comprometimento do estado geral, nos casos da
peritonite localizada.
As peritonites localizadas podem evoluir para a formação de abscessos. Suas causas mais frequentes
são: apendicite supurada, colecistite e os processos inflamatórios pélvicos nas mulheres e gastrenterites,
sendo este diagnóstico de exclusão. Outras causas são: doença diverticular complicada, úlcera péptica
perfurada e peritonite bacteriana espontânea.
Na suspeita de abdômens cirúrgicos, não oferecer água ou comida e encaminhar o paciente
imediatamente para um serviço de pronto-socorro que ofereça assistência cirúrgica e exames
complementares.
A exposição ocupacional a tóxicos ou químicos, obstipação crônica, viagem recente e sintomas
similares com contactantes podem indicar causas não cirúrgicas de dor abdominal.
Depois de descartada a possibilidade de emergência cirúrgica, considerar outras hipóteses
diagnosticadas e, além das causas abdominais, considerar também a possibilidade de doenças
extra-abdominais, que podem se apresentar com dor referida no abdome (Quadro 30). Para essa
diferenciação, anamnese cuidadosa e exame físico detalhado são fundamentais. É evidente que a
maioria das possíveis causas da dor não poderá ser checada em uma unidade básica, tanto que o
capítulo pretende apenas auxiliar a identificação de uma situação de emergência. No entanto, citamos
uma gama de possibilidades, na certeza que uma história clínica e exames físicos minuciosos ajudarão
o centro de referência a conduzir o caso e acessar dados mais precisos.

Quadro 30 – Classificação do abdome agudo, segundo a natureza do processo determinante

1. Inflamatório: apendicite aguda, colecistite aguda, pancreatite aguda, diverticulite do cólon, doença inflamatória pélvica, abscessos intracavitários, peritonites primárias e secundárias, febre do Mediterrâneo.
2. Perfurante:   úlcera péptica, câncer gastrointestinal, febre tifoide, amebíase, divertículos de cólons, perfuração do apêndice, perfuração da vesícula biliar.
3. Obstrutivo: obstrução pilórica, hérnia estrangulada, bridas,  áscaris, corpos estranhos, cálculo biliar, volvo, intussuscepção.
4. Hemorrágico: gravidez ectópica, rotura de aneurisma abdominal, cisto hemorrágico de ovário, rotura de baço, endometriose, necrose tumoral.
5. Vascular: trombose da artéria mesentérica, torção do grande omento, torção do pedículo de cisto ovariano, infarto esplênico.

Fonte: (DANG et al., 2002).

 

Quadro 31 – Causas abdominais e extra-abdominais de abdome agudo

CAUSAS ABDOMINAIS
Gastrointestinal Peritonites secund rias a doenças agudas de órgãos abdominais ou pélvicos e a traumas abdominais
Apendicite Urológica
Obstrução intestinal (delgado e grosso) Cálculo ureteral
Isquemia mesentérica Cistite
Diverticulite de Meckel Pielonefrite
úlcera péptica perfurada Retroperitoneal
Perfuração intestinal Aneurisma aórtico
Diverticulite do cólon Hemorragia
Doença inflamatória intestinal Ginecológicas
Páncreas, vias biliares, fígado e baço Cisto ovariano roto
Pancreatite aguda Gravidez ectópica
Abscesso hepático Endometriose
Hepatite aguda Torsão ovariana
Rotura esplênica Salpingite aguda
Colecistite aguda Rotura uterina
Tumor hepático hemorrágico Parede abdominal
Colangite aguda Hematoma do músculo reto
Peritoneal  
Peritonite primária (peritonite bacteriana espontánea)  
CAUSAS  EXTRA-ABDOMINAIS
Cardíacas hematológicas Neurológicas
Infarto agudo do miocárdio (IAM) OUTRAS
Anemia falciforme Radiculite
Miocardite Contusão muscular ou tumor
Anemia hemolítica Epilepsia abdominal
Endocartite Uso de narcóticos
Púpura de Henoch-Schonlein Tabes dorsalis
Falência cardíaca congestiva Doenças psiquiatricas
Leucemia aguda Metabólicas
Torácicas tóxicas Hematoma
Pneumonites Uremia
Reação de hipersensibilidade Diabetes Mellitus
Infarto ou ebolismo pulmonar Porfiria
Picada de animais venenosos Insuficiência adrenal aguda
Pneumotórax Hiperlipidemia
INFECCIOSAS  

 

Hiperparatireoidismo

Empiema
Herpes zoster
Esofagite

Fonte: (DANG, 2002; FISHMAN, 2009).

Anamnese e exame físico
Os pacientes com dor abdominal aguda frequentemente necessitam de investigação e manejo
urgentes. Cada indivíduo deve ser avaliado quanto à permeabilidade das vias aéreas, respiração e
circulação e sinais vitais antes da avaliação abdominal.
Pacientes com suspeita de abdome agudo, necessidade de reanimação ou analgesia parenteral devem
ser transferidos para um serviço de pronto-socorro que disponha de exames complementares e atendimento
cirúrgico. Os pacientes com doenças menos agudas merecem abordagem detalhada (conforme descrição
abaixo) e alguns ainda podem necessitar de transferência para avaliação suplementar.
A abordagem dos pacientes com dor é um grande desafio, pois algumas vezes eles e seus familiares trazem consigo uma carga de angústia. Assim, a avaliação deve possibilitar a compreensão da queixa da dor, incluindo os aspectos emocionais, as dificuldades nas relações familiares e sociais e ainda a habilidade potencial de enfrentamento da dor e dos fatores que a influenciam.
Muitos fatores modificam a expressão da dor como em crianças, imunocomprometidos (incluindo diabéticos e renais crônicos), gestantes e idosos.
Sugere-se que alguns dados sejam observados durante a anamnese:
1. Faixa etária.
2. Sexo.
3. Ocupação.
4. Características da dor: localização, irradiação, caráter, intensidade, duração, evolução, fatores desencadeantes
ou agravantes, fatores de alívio e relação com as funções orgânicas.
5. História pregressa: cirurgias prévias, fatores de risco para doenças cardiovasculares e viagem recente.
6. Uso de medicamentos.
7. Período do ciclo menstrual e contracepção.
8. História de doenças sexualmente transmissíveis.
9. Sinais e sintomas associados:
a. Sistêmicos: perda ponderal significativa, febre, adenomegalias, fadiga, ganho de peso, sudorese noturna, adinamia.
b. Digestivos: náuseas, vômitos, diarreia, obstipação, distensão abdominal, eructações, pirose,
plenitude pós-prandial, empachamento (sensação de repleção gástrica), sinais ou sintomas de
colestase (icterícia, colúria, acolia e prurido), hemorragia digestiva (hematêmese, melena, enterorragia,
hematoquesia), hepato-esplenomegalia.
c. Extradigestivos: artite/artralgia, dor pleural, urgência miccional, dispareunia, dismenorreia, dor
lombar, dorsalgia, fraqueza dos membros, enxaqueca.
d. Estresse: palpitações, insônia, faticabilidade, alteração do apetite, sono e desejo sexual, tristeza,
adinamia, preocupação.
10. História familiar: ênfase a doenças intestinais e comunicantes com quadros agudos.
11. História psicossocial. É importante compreender a percepção que o indivíduo tem acerca da dor, pois
o nível cognitivo, experiências dolorosas prévias, padrões culturais, relações familiares e repercussões
da dor na vida cotidiana podem interferir na expressão da queixa.
12. Hábitos: uso de álcool, drogas e tabaco.
A apresentação clínica das diversas causas de dor abdominal aguda pode ser diferente em cada
pessoa, por isso a história detalhada e o exame físico minucioso ainda são as ferramentas mais
importantes do médico. O exame físico deve seguir as normas semiotécnicas.

Inspeção: observar a presença de distensão abdominal, hérnias, cirurgias prévias, exame da pele
e conjuntiva (buscando icterícia, sinais de hepatopatia crônica ou outros, como herpes zoster) e a
posição no leito (posições antiálgicas). Pacientes que se encontram visivelmente agitados e inquietos
podem sugerir cólica renal, enquanto os imóveis, com membros inferiores fletidos, podem sugerir
peritonite. Equimose periumbilical (sinal de Cullen) ou em flanco (sinal de Grey-Turner) que podem
sugerir pancreatite aguda grave ou hemorragia abdominal.
Ausculta: dois objetivos são básicos: avaliar o estado da motilidade intestinal e pesquisar a presença
de sopros vasculares, especialmente da aorta abdominal em idosos e artérias renais eilíacas. Deve
ser efetuada durante dois minutos, em um ou dois pontos de pesquisa. Normalmenteos ruídos são
escutados de duas a 12 vezes por minuto.
Percussão: deve ser feita com a técnica habitual, abrangendo todos os quadrantes e, no local em
que se suspeite de alterações patológicas, pode ser intensificada. Esta será útil para identificar a
presença de líquido ascítico, de massas sólidas, distensão abdominal e os limites hepáticos e esplênicos.
Realizar a punho percussão lombar para avaliar os rins (sinal de Giordano).
Palpação: nesse momento, durante a palpação superficial e profunda, o examinador poderá
pesquisar hérnias, massas e eventuais anormalidades nos órgãos que são identificados. Algumas
manobras podem ser importantes para a elucidação diagnóstica, como: descompressão brusca,
piparote, palpação de pulsos arteriais e pesquisa do sinal de Murphy. Um fato importante é o
fenômeno da migração do epíploon em direção às vísceras acometidas, para tamponar a área, bem
como das vísceras adjacentes. Ao exame isso aparece como um “plastrão”. No exame do hipogástrio,
atentar para a presença de útero gravídico.
Além do exame segmentado, realizar o exame detalhado do tórax, genitália e região anal (com
toque retal), incluindo exame ginecológico para mulheres com dor em baixo ventre.
Apresentamos abaixo o Quadro 32 que resume os fatores que indicam alto risco de um quadro de
dor abdominal ser um abdome agudo

Quadro 32 – Fatores que indicam alto risco em dor abdominal

HISTÓRIA
Idade maior de 60 anos.
Imunocomprometidos (HIV, usuário crônico de corticoide, drogas antineoplásicas ou pós-transplantados).
Uso abusivo de  álcool (risco de hepatite, cirrose e pancreatite).
Doença cardiovascular (insuficiência coronariana e vascular periférica, HAS e fibrilação atrial).
Comorbidades importantes (câncer, doença diverticular, pancreatite, insuficiência renal).
Cirurgia prévia ou manipulação gastrointestinal recente (risco de obstrução e perfuração).
Gravidez recente (risco de gravidez ectópica).
CARACTERÍSTICAS DA DOR
Início súbito e intenso.
Dor seguida de vômito.
Dor constante e com duração menor que dois dias.
ACHADOS DE EXAME FÍSICO
Sinais de choque.
Abdome tenso ou rígido.
Sinal de defesa ao exame.
Posição antiantálgica.
Equimose periumbilical (sinal de Cullen) ou em flanco (sinal de Grey-Turner).
Distens  o abdominal e/ou rigidez da parede abdominal.
Piora da dor abdominal  às seguintes manobras:
Descompressão brusca (sinal de Blumberg).
Hipersensibilidade localizada.
Sinal de Rovsing (dor no quadrante inferior direito durante a compressão do lado esquerdo).
Sinal do psoas (dor abdominal quando o examinador coloca a mão mediatamente acima do joelho direito do paciente e pede para que ele eleve a coxa direita contra a sua mão).
Sinal do obturador (estire o músculo obturador interno flexionando a coxa esquerda do paciente na altura do quadril, com o joelho dobrado, e gire a perna para dentro, na altura do quadril).
Hiperestesia cutânea.
Sinal de Murphy (para identificar colecistite aguda).
Toque retal doloroso (deve-se associar a outros sinais para aumentar a sensibilidade).
Toque vaginal doloroso (deve-se associar a outros sinais para aumentar a sensibilidade).

Fonte: (BENSEÑOR et al., 2002).

Localização da dor
Não devemos basear nossos diagnósticos diferenciais apenas na localização da dor, pois em até
40% dos casos eles não correspondem aos achados de exame físico. Obviamente, a correlação com
anamnese é capaz de minimizar essa diferença. Além disso, a localização da dor pode modificar-se
ao longo do tempo, caracterizando a progressão da doença. Ver Quadro 33.

Quadro 33 – Causas mais prováveis de dor abdominal segundo a sua localização

QUADRANTE SUPERIOR DIREITO QUADRANTE SUPERIOR ESQUERDO
Hepatites Abscesso esplênico
Colecistite Infarto esplênico
Colangite Gastrite
Sindrome de Budd-Chiari úlcera gástrica
Pneumonia/enfisema pleural Pancreatite
Abscesso subdiafragmático QUADRANTE INFERIOR ESQUERDO
QUADRANTE INFERIOR DIREITO Diverticulite
Apendicite Salpingite
Salpingite Gravidez ectópica
Gravidez ectópica Hérnia inguinal
Hérnia inguinal Nefrolitíase
Nefrolitíase Sindrome do intestino irritável
Doença inflamatória pélvica (DIP) Doença inflamatória intestinal (DIP)
Adenite mesentérica DIFUSA
EPIGÁSTRICA Gastrenterite
Doença ulcerosa péptica Isquemia mesentérica
Refluxo gastroesof fico Metabólica
Gastrite Malária
Pancreatite Obstrução Intestinal
IAM Peritonite
Pericardite Síndrome do intestino irritável
Ruptura de aneurisma de aorta  

Obstipação

PERIUMBILICAL
Quadro inicial das apendicites
Gastroenterites
Obstrução intestinal
Ruptura de aneurisma de aorta

Fonte: (BENSEÑOR et al., 2002; FISHMAN et al., 2009).

Principais causas de dor abdominal aguda não cirúrgica
Se, por meio da anamnese e exame físico, o médico assistente na APS identificar que não há sinais
de suspeição de abdome agudo, o paciente deverá ser acompanhado na própria UBS e tratado de
acordo com a hipótese diagnóstica. As principais causas de dor abdominal aguda não cirúrgica são:
Dismenorreia
Diagnóstico: normalmente apresenta-se em mulheres jovens como dor tipo cólica, em baixo ventre,
relacionada ao período menstrual, durando até 72 horas, cuja intensidade varia consideravelmente
e pode trazer outros sintomas, como: náuseas, vômito, diarreia, cefaleia, mastalgia, alterações do
humor e raramente episódios de síncope. Dependendo da intensidade, é também causa frequente de
absenteísmo no trabalho e má qualidade de vida. Não é raro se manifestar em episódios recorrentes.
A dor alivia com massagem, contrapressão ou movimentação do corpo.
O diagnóstico é baseado na anamnese e natureza cíclica da dor, com exame ginecológico normal
ou revelando desconforto à palpação do útero, sem dor considerável à palpação e à mobilização dos
anexos e à mobilização uterina.
Antes de iniciar o tratamento, é importante diferenciar dismenorreia primária (sem problemas
orgânicos subjacentes) ou secundária (associada a doenças pélvicas como malformações uterinas,
endometriose, miomas, uso de DIU).
Tratamento: as dismenorreias secundárias têm tratamento específico, conforme a entidade
nosológica relacionada. Já as dismenorreias primárias têm ocorrência e gravidade influenciadas por
fatores potencialmente modificáveis, como: alimentação, peso, tabagismo, estresse, sedentarismo
e consumo de álcool. Dessa forma, a adoção de hábitos de vida mais saudáveis frequentemente
proporciona o alívio dos sintomas. Pode ser feito uso de anticoncepcionais hormonais, AINES,
inibidores das prostaglandinas, antiespasmódicos, além de antidepressivos e psicoterapia.

Dispepsias
Diagnóstico: dor epigástrica, normalmente recorrente ou persistente, associada a sintomas
de refluxo gastroesofágico (azia, pirose, eructação, plenitude pós-prandial, náusea, distensão
abdominal etc.), classicamente compõe o quadro de doença ulcerosa péptica. O desafio é definir
quais pacientes devem prosseguir à investigação e quais devem receber tratamento medicamentoso
e ser observados clinicamente. Sugere-se ter base nesses critérios (sinais de alerta): idade maior que
50 anos, emagrecimento, vômitos persistentes, disfagia, anemia, hematêmese, massa abdominal
palpável, história familiar de câncer gastrointestinal, cirurgia gástrica prévia.
Tratamento: na ausência dos sinais de alarme, manejar com orientação de medidas gerais (dieta,
cessação de tabagismo, restrição no consumo de álcool, AINES e bebidas gaseificadas), antiácidos (hidróxido de alumínio e magnésio), bloqueadores dos receptores de histamina (cimetidina e
ranitidina) ou inibidores da bomba de prótons (omeprazol e pantoprazol).

Cólica renal
Diagnóstico: dependendo do local da obstrução ureteral, pode ser confundida com um quadro de
abdome agudo, fazendo diferencial inclusive com aneurisma abdominal, tal é a intensidade da dor
em alguns casos. No entanto, pode variar de intensidade desde desconforto leve até dor severa, as
quais costumam evoluir como cólicas intermitentes, paroxísticas. A dor pode irradiar-se para flanco
e região inguinal ou genital. Hematúria está presente em 70%-90% dos casos. Para o seguimento
ambulatorial, os métodos de imagem também têm sua relevância, como radiografia, ultrassonografia,
urografia excretora e tomografia computadorizada, especialmente para avaliar a necessidade de
intervenção urológica (cálculos sintomáticos maiores que 7mm, via de regra, necessitam de alguma
abordagem intervencionista).
Tratamento: cabe falar inicialmente da importância da prevenção de formação dos cálculos, no entanto,
nesse momento, devemos nos ater ao manejo agudo. Recomenda-se analgesia (Aines) e hidratação.

Doença inflamatória pélvica (DIP)
Diagnóstico: o sinal cardinal é dor em baixo ventre. A tríade clássica consiste em: dor pélvica, dor à
mobilização cervical e à palpação dos anexos e febre. Em alguns pacientes pode haver associação com
dispareunia, irregularidade menstrual, sintomas geniturinários e leucorreia (fluxo cervical purulento).
O diagnóstico é baseado na história e exame físico, enfatizando o exame ginecológico.
Tratamento (Quadro 34): os principais agentes etiológicos são Neisseria gonorrhoeae;
Chlamydia trachomatis; Micoplasma hominis; Ureaplasma urealyticum; Streptococus B hemolítico
grupo A; anaeróbios; outros aeróbios. Dessa forma, devemos fazer cobertura ampla com antibióticos
e incentivar repouso, sintomáticos e indicar a retirada do DIU, se a mulher for usuária. Pacientes
com queda do estado geral ou sintomas severos (vômitos, instabilidade nos sinais vitais e toxêmicos)
podem necessitar de terapia endovenosa. Investigar o parceiro e tratá-lo (azitromicina ou doxiciclina),
além de oferecer sorologias (HIV, VDRL, sorologia para hepatite B e C) para ambos.

Quadro 34 – Tratamento ambulatorial

ESQUEMA A ESQUEMA B
Cefoxitina 2g IM com probenecida 1g, VO ou Norfloxacina 400mg, VO, 12h/12h, por 14 dias, ou
Ceftriaxone 250mg IM, ou Levofloxacina 500mg, VO, 1 vez/dia, por 14 dias
Cefalosporina equivalente COM OU SEM
MAIS  

Metronidazol 500mg, 12h/12h, por 14 dias

Doxiciclina 100mg, VO, 12h/12h por 14 dias
COM OU SEM
Metronidazol 500mg, VO, 12h/12h, por 14 dias

Fonte: (BEREK, 2008).

Constipação intestinal
Diagnóstico: baseado na história clínica. O paciente normalmente se refere à dor abdominal tipo cólica,
difusa, geralmente recorrente, associada à alteração do hábito intestinal (com diminuição da frequência –
menor que três vezes/semana e ressecamento das fezes), esforço evacuatório doloroso, sensação de evacuação incompleta e necessidade de manipulação digital para facilitar a saída das fezes. Em adultos, a constipação intestinal pode estar associada ao uso de medicamentos anticolinérgicos (opioides, antidepressivos, antihistamínicos, corticoides, benzodiazepínicos, entre outros) e comorbidades (neurológicas, metabólicas,
psiquiátricas, endócrinas e proctológicas) e, em crianças, a grande maioria se trata de obstipação funcional
ou está associada à hipersensibilidade alimentar.
Ao exame, podem ser observadas alterações anorretais, com mais de 60 anos apresentam risco
aumentado de doenças graves e uma grande porção delas não manifesta sinal ou sintoma que indique
gravidade, ou apresenta sintomas vagos, não específicos e atípicos.
Medicamentos como betabloqueadores, corticoides e comorbidades (por exemplo, a Diabetes Mellitus)
são comuns nessa faixa etária e costumam contribuir para mascarar os sintomas. São diagnósticos
importantes para essa população: ruptura de aneurisma de aorta abdominal, isquemia mesentérica,
IAM, obstrução e perfuração intestinal, doença diverticular, volvo, patologias biliares e neoplasias.
Crianças: nelas, a abordagem constitui grande desafio. Apesar de muitos casos serem benignos e
autolimitados, alguns requerem rápido diagnóstico e tratamento para minimizar as morbidades.
A causa mais comum são as gastroenterites, e a causa cirúrgica mais frequente é a apendicite.
A idade é o fator-chave na avaliação das etiologias, pois a incidência e os sintomas variam
demasiadamente. Acompanhe no Quadro 35:

Quadro 35 – Diagnóstico diferencial de dor abdominal aguda em crianças, segundo a faixa etária

Até 1 ano de vida 2-5 anos 6-11 anos 12-18 anos
Cólica infantil

Gastroenterites Obstipação

Infecç o do trato urinário Intussuscepção

Volvo

Hérnia encarcerada Doença de Hirshprung

Gastroenterites

Apendicite Obstipação

Infecção do trato urinário Intussuscepção

Volvo Trauma Faringite

Anemia falciforme Púrpura de Henoch- Schonlein

Linfadenite mesentérica

Gastroenterites

Apendicite Obstipação Dor funcional

Infecção do trato urinário Trauma

Faringite Pneumonia Anemia falciforme

Púrpura de Henoch- Schonlein

Linfadenite mesentérica

Apendicite

Gastroenterites Obstipação Dismenorreia Mittelschmerz (dor do meio)

DIP

Abortamento Gravidez ectópica Ovário/testicular torsão

Fonte: (FISHMAN et al. 2009; LEUNG, 2003; FERRY, 2009).

Pacientes portadores de HIV: há predisposição para infecções oportunistas ou dor abdominal
decorrente do uso de medicação: DDI (dideoxinosine), por exemplo. Além disso, o tratamento
instituído aumenta o risco de outras doenças, como pancreatite e nefrolitíase.
Gestantes: podem apresentar poucos sinais clínicos e, muitas vezes, não apresentam sinais de
peritonite, pela menor sensibilidade peritoneal, fruto da distensão da cavidade. A apendicite é a
causa mais comum de cirurgia durante esse período. Tenha em mente que hematúria microscópica e
piúria ocorrem em um terçodos pacientes com apendicite, cuidado para não atribuir esses achados a
uma infecção do trato urinário unicamente.
Trato genitourinário: é um sítio comum para desencadear quadros de dor abdominal,
especialmente em baixo ventre. Infecções no trato urinário, nefrolitíase, obstrução ureteral, torção
de anexos, ruptura de cistos ovarianos, doenças inflamatórias pélvicas (DIP), vaginoses e vítimas de
violência doméstica são uns exemplos de diagnóstico que devem ser aventados.

Lembrar que, se não pensamos em uma situação/doença, não faremos seu diagnóstico, neste
contexto, o exame ginecológico assume papel de destaque na investigação de quadros de dor
abdominal aguda em mulheres em idade reprodutiva.
Uso de drogas: muitos tóxicos e drogas podem causar dor abdominal. Nas dores tipo queimação,
os principais fármacos envolvidos, por causarem lesão na mucosa, são: sulfato ferroso, bisfosfonados,
AAS, anti-inflamatórios não esteroidais. Esses fármacos podem levar até a perfuração esofágica ou
gástrica. Anticolinérgicos e narcóticos podem causar dor secundária a volvo ou obstrução.
Anfetaminas, ergotaminas e cocaína podem causar dor por vasoconstricção, levando à isquemia
intestinal. Acetominofen pode causar lesão hepática e DDI, pancreatite. Intoxicação por metais
pesados faz diagnóstico diferencial para pacientes com dor abdominal associada à anemia.
Neoplasia: dor abdominal pode ser uma manifestação de câncer. Na neoplasia de ovário, pode estar
associada com inchaço, dispepsia, distensão abdominal, flatulência, anorexia, sensação de “plenitude
pélvica e retal”, dorsalgia, urgência ou aumento na frequência das evacuações. Já no câncer colorretal,
podemos observar alteração do hábito intestinal, emagrecimento e sangramento anal. Nas leucemias,
pode haver sintomas sugestivos de abdome agudo com obstrução funcional, disfunções autonômicas
e irritação peritoneal.

Encaminhamento
De fato, atender um paciente com dor abdominal é um grande desafio não só pela vastidão de
possíveis diagnósticos, mas principalmente por sabermos que, muitas vezes, a decisão de transferir
o paciente e solicitar um exame – e a demora em mobilizar tais recursos – é capaz de interferir no
prognóstico. O paciente deve ser referenciado para avaliação cirúrgica nas seguintes situações:
• Dor intensa ou piora brusca com sinais de deterioração
• Vômito fecaloide
• Defesa abdominal/rigidez
• Distensão abdominal importante
• Trauma importante
• Suspeita de causa cirúrgica
• Dor abdominal aguda sem etiologia evidente
• Sinais de líquido ascítico ou sangue na cavidade abdominal

Figura 29 – Fluxograma para o atendimento com classificação de risco/vulnerabilidade dos pacientes com quadro de dor abdominal que procuram atendimento na AB

 

Fonte: Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica, 2011.

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One comment

  1. A dor abdominal é uma das queixas mais comuns nas consultas médicas

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